Embora o Peru possua um dos maiores portfólios de energia renovável em desenvolvimento na América do Sul, a nova rotatividade de autoridades no Ministério de Energia e Minas (MINEM) levanta novamente dúvidas sobre a capacidade do país de transformar esse potencial em projetos concretos.
A recente nomeação de um novo Vice-Ministro da Eletricidade provocou um forte alerta de Brendan Oviedo Doyle, sócio da DLA Piper Peru e especialista em regulação energética, que associou diretamente a instabilidade institucional à paralisação dos investimentos estratégicos para o sistema elétrico peruano.
"O setor elétrico, uma infraestrutura crítica que sustenta absolutamente toda a atividade produtiva do país, tornou-se uma das maiores vítimas da improvisação do Estado peruano", afirmou o especialista via LinkedIn.
A preocupação surge num momento particularmente sensível para o mercado. O Peru atravessa um período de incerteza política associado ao processo eleitoral e tem várias definições regulamentares pendentes, consideradas cruciais para a expansão da geração de energia renovável, o armazenamento de energia e a modernização do mercado de eletricidade.
Mais de 12 bilhões de dólares aguardam sinais políticos.
Por trás do debate institucional, esconde-se um número que preocupa desenvolvedores, investidores e financiadores. Segundo dados da Associação Peruana de Energias Renováveis (SPR), existem atualmente 58 projetos de energia renovável prontos para avançar, representando mais de 12,5 GW de capacidade instalada potencial e mais de US$ 12 bilhões em investimentos , desde que haja sinais claros de aprovação regulatória por parte do governo. O portfólio inclui projetos de energia solar e eólica distribuídos por diferentes regiões do país, muitos dos quais estão em processo de licenciamento administrativo, ambiental e regulatório há anos.
No caso específico da energia solar, informações compiladas pela Energía Estratégica a partir do banco de dados da Osinergmin mostram que existem 65 projetos fotovoltaicos em processo de licenciamento, totalizando 13.116 MW, todos com estudos pré-operacionais aprovados. No entanto, apenas 11 projetos, equivalentes a 2,3 GW, receberam aprovação final para prosseguir com a construção, refletindo a lacuna entre o desenvolvimento do projeto e a implementação efetiva.
A situação é semelhante no setor de energia eólica. O Peru possui mais de 14,8 GW de energia eólica em vários estágios de desenvolvimento, dos quais aproximadamente 8,9 GW já têm Estudos Pré-Operacionais aprovados, enquanto outros 5,2 GW ainda estão em processo de aprovação regulatória. Esse número contrasta fortemente com a capacidade eólica instalada, que mal ultrapassa um gigawatt.
Regulamentações pendentes e projetos em espera.
Uma das principais preocupações do setor é o atraso na implementação da Lei 32249, regulamentação destinada a reativar os concursos públicos para o fornecimento de eletricidade realizados pelas distribuidoras e considerada fundamental para viabilizar novos contratos de longo prazo para energias renováveis.
Embora o regulamento tenha sido submetido à consulta pública e recebido comentários técnicos há meses, sua publicação final ainda está pendente.
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"Pessoalmente, não vejo muita chance de ser publicado sob este governo, embora eu espere estar enganado", alertou Oviedo anteriormente ao analisar o contexto pré-eleitoral peruano.
A falta de clareza também se estende ao novo mercado de serviços auxiliares, uma reforma considerada estratégica para o futuro do sistema elétrico.
O setor aguarda sinais econômicos claros para serviços como controle de frequência, regulação de tensão, reservas operacionais e flexibilidade da rede. A ausência desses incentivos limita o desenvolvimento de tecnologias emergentes, como sistemas de armazenamento de baterias, que estão prestes a desempenhar um papel central na integração de volumes maiores de geração de energia solar e eólica.
Preocupação com a continuidade técnica
O alerta do especialista não se limita ao atual ciclo eleitoral. Segundo Oviedo, um dos principais problemas estruturais do país é a falta de continuidade na tomada de decisões públicas.
"Enquanto o Peru discute como crescer, atrair investimentos ou desenvolver a mineração ou a indústria, continuamos negligenciando justamente o setor que torna tudo isso possível", disse ele.
O especialista argumenta que a constante sucessão de ministros, vice-ministros e funcionários técnicos cria uma dinâmica em que os projetos regulatórios avançam ou estagnam de acordo com as prioridades de cada administração, dificultando o planejamento a longo prazo.
A situação é particularmente complexa para um setor cujos projetos normalmente exigem horizontes de investimento entre 20 e 30 anos e processos de financiamento que dependem da estabilidade regulatória.
Segundo o advogado, as consequências já se fazem sentir no mercado. "Como resultado, vemos investimentos paralisados, falta de orientação regulatória e um país que começa a pôr em risco a sua própria segurança energética", afirmou.
O alerta é particularmente relevante considerando que o Peru busca aumentar a participação de energias renováveis, fortalecer a rede de transmissão e atender ao crescimento da demanda por eletricidade impulsionada por novos projetos de mineração e industriais.
Nesse contexto, a incerteza política não se apresenta mais apenas como um problema institucional, mas como um fator que pode condicionar a execução de mais de 12,5 GW de projetos de energia renovável e mais de US$ 12 bilhões em investimentos potenciais que atualmente aguardam definições regulatórias e sinais de longo prazo.
Como Oviedo resumiu em sua publicação, o desafio não é apenas nomear novas autoridades, mas construir um roteiro energético capaz de sobreviver às mudanças políticas e oferecer previsibilidade àqueles que devem tomar decisões de investimento para as próximas décadas.

